Post Image
hace 4 meses

"Tecnologia e matérias-primas. Claramente é o grande handicap de Angola"

Criar centros logísticos e construir estradas para escoar a produção é fundamental para a entrada de empresas no sector da agro-indústria, que pode ser o motor da economi...



Além da Textang, o grupo IEP - Investimentos e Participações ficou com três fazendas do Programa de Privatizações (PROPRIV). Quais são os vossos projectos para estes activos?

Na fazenda do Quizenga, Malanje, temos três mil hectares para a produção de milho e algodão. Temos uma fábrica de farinha de milho e silos com capacidade para armazenar 12 mil toneladas de grãos. Esta fazenda começa a produzir já nesta campanha agrícola. Se correr tudo bem, vamos colher, entre Abril e Maio, 8 mil toneladas de milho.

E a fazenda de Longa, no Cuando Cubango?

Está vocacionada para a produção de arroz, tem toda a infraestrutura, com tecnologia de ponta, para a secagem, descasque e ensacagem. Este ano, vamos plantar 600 hectares de arroz e milho. Também descobrimos que esta fazenda tem condições climáticas para a produção de trigo, por isso queremos construir uma fábrica de farinha de trigo e dar-lhe um perfil de irrigação, por termos o rio Longa próximo. Vai permitir-nos fazer dois cultivos por ano. A intenção é estender a área de plantio para 20 mil hectares, para darmos autossuficiência à província, na produção de arroz, farinha de trigo e de milho, e para exportar. Há uma projecção de investimentos para Longa de 30 milhões USD, nos próximos 3 anos.

A farinha e o grão vão ser vendidos a granel?

Como fazemos em Quizenga. Empacotamos em bolsas de 25 e 50 quilos. A maquinaria está desenhada para este packaging.

Para o mercado externo, a lógica será a mesma?

O mercado externo ainda não está no nosso horizonte, mas seria este o conceito. A Argentina, que tem um perfil exportador de alimentos, manda para o mercado bolsas de 25 e 50 quilos. No destino, o retail faz um novo packaging, para 1 quilo, 5, 10.

A experiência que trazem da Argentina é uma mais-valia?

É uma mais-valia extraordinária, pela tecnologia. A Argentina utiliza tecnologia de ponta, é um país de 40 milhões e produz alimentos para 600 milhões de pessoas, é o quarto maior exportador de alimentos. A tecnologia e o management argentino têm sido muito úteis num país que está a ganhar forma.

Qual o investimento feito nestas fazendas?

Dois milhões USD em Longa e o mesmo valor em Quizenga.

E na fazenda do Kuimba?

Temos produção de frangos, de ovos e de ração animal. Temos 9 mil hectares, queremos estender para 40 mil. É uma operação muito atractiva, não só pela proximidade à fronteira com a República Democrática do Congo, como para o mercado interno. Temos um negócio dentro do negócio, que é produzir ração também para outros projectos.

Não querem ficar dependentes da importação?

Vamos plantar agora mil hectares de milho e de soja para começarmos a produzir matéria-prima para a produção de ração. Como sabem, Angola depende fortemente do mercado brasileiro quanto à importação de frango, de maneira que temos ilusão que esta fábrica vai dar um contributo importante para diminuir as importações.

Já foi investido quanto?

Um milhão USD. Kuimba está um pouco atrás em relação às outras duas.

A criação da Reserva Estratégica Alimentar (REA) vai, de alguma forma, interferir no mercado?

Nós participámos no concurso para gerir a reserva, não tivemos sorte, ganharam outros. O objectivo é terminar a especulação dos preços dos produtos da cesta básica. Ou seja, que o arroz, açúcar, feijão, farinha de trigo e milho tenham como tecto limites impostos pela reserva e, quando há escassez, o governo põe volumes deste stock na rua. O objectivo é combater a especulação dos importadores, das empresas, sobretudo estrangeiras. Sabemos quais são as que lideram o mercado de importação destes produtos.

Mas não afectará os preços da produção nacional, que tem custos muito elevados?

No mercado interno, os preços, historicamente, sempre foram mais altos do que os valores de Chicago, que é a praça que regula os preços de commodities, a nível global. Tanto os preços da cesta básica, como os da REA já estão em linha com os valores que se praticam no mercado. Isto evita que haja uma especulação máxima. Portanto, a criação da REA é uma boa notícia.

Acredita que a REA não vai inibir a produção nacional?

Não, porque estes stocks somente actuam quando há falta de matéria-prima no mercado, ou seja não compete, regula. Quando há escassez, entra o stock da REA, mas é momentâneo. A REA não tem vocação para competir com as empresas no mercado.

Esse é o espírito. Acredita que não vai haver desvios?

Bom, não deveria haver. Eu creio que essas coisas melhoraram muito em Angola. Já não é como antes, que aconteciam à vista de toda a gente. Hoje em dia, as pessoas têm outra seriedade.

Qual é que continua a ser o principal desafio das empresas em Angola?

Tecnologia, insumos, matérias-primas. Claramente é o grande handicap de uma produção competitiva em Angola. Um camponês em Angola dificilmente chega aos mil quilos de milho por hectare, é difícil que este camponês possa sobreviver. O grande desafio é que a tecnologia comece a chegar a mais empresas. São muito importantes as infraestruturas, que as estradas não continuem a deteriorar-se. Para a agricultura é um ponto-chave, porque todo o escoamento da produção é feito via camião.